Como descreve a atual pandemia que estamos a viver?

Para além do enorme desafio para se conseguir uma adequada resposta dos sistemas de saúde, representa também um enorme desafio para a sociedade, não só pelo impacto económico que condiciona, mas sobretudo pela necessidade de reflexão sobre o estabelecimento de prioridades. É também um momento de humildade para todos nós.

Considera que Portugal está a lidar bem com esta crise? Onde poderíamos melhorar?

Ainda estamos no início da pandemia e por isso é muito cedo para poder fazer uma avaliação precisa da nossa resposta. Houve claramente uma demora em implementar algumas medidas iniciais, como por exemplo o controlo e rastreio de pessoas vindas de zonas infetadas. Mas podemos neste momento celebrar algumas vitórias, como termos conseguido achatar a tal curva de infetados, de modo a conseguir manter a capacidade de resposta adequada dos serviços de saúde, como até agora. E também devemos estar orgulhosos da extraordinária capacidade de reorganização dos hospitais, feita pelos profissionais de saúde em tempo recorde, o que a par da sua qualidade e dedicação levou ao reduzido número de óbitos, quando comparado com outros países. Também é preciso salientar pela positiva o comportamento dos portugueses, que cedo compreenderam e assumiram também como sua a responsabilidade de combater esta doença, como demonstra a adoção tranquila das medidas de afastamento social Há que dar continuidade às rotinas de prevenção e vigilância na luta contra as “outras” doenças.

No seu entender o sistema de saúde está a conseguir dar a resposta adequada?

Sim, é preciso não esquecer que existem todas as outras doenças para além da COVID-19, que é preciso continuar a tratar. Os sistemas fizeram reorganizações muito profundas de modo a conseguirem dar resposta à pandemia e, simultaneamente, às restantes patologias, como os doentes oncológicos, cujos tratamentos e intervenções não foram interrompidas. Também foi um momento que se acelerou a introdução de tecnologia para permitir o seguimento à distância de muitos doentes, como as teleconsultas, que implicam uma mudança muito significativa da relação médico- doente, mas com resultados muito satisfatórios até este momento.

Como profissional de saúde que conselho gostaria de dar às famílias quando terminar o estado de emergência e algumas atividades começarem a retomar?

Ainda estamos no início da pandemia, há muita incerteza sobre o futuro e não se prevê uma vacina ou tratamento eficaz a médio prazo. Por tudo isto, a retoma de algumas atividades tem que acontecer de forma gradual e regrada, com a adoção de novos hábitos, como a utilização de máscaras sociais, reorganização de espaços e modelos de trabalho para ser possível manter distanciamento social. Também nas nossas vidas particulares vai ser necessário manter algumas restrições como as atuais, de modo a que não exista um ressurgimento abrupto do número de infetados. Por isso vamos todos que ser pacientes e resilientes, de modo a conseguir vencer esta “guerra”, o que se consegue com pequenas vitórias diárias. Estou certo que “vai ficar tudo bem”, se mantivermos os nossos comportamentos responsáveis em sociedade.