Portugal, uma casa do Brasil

Os brasileiros são a maior comunidade estrangeira em Portugal. Em 2017, foram a terceira nacionalidade a adquirir mais casas no país. O perfil de quem está a chegar nos últimos anos mudou. Agora, são famílias com poder de compra que estão a mudar-se para cá e a investir. A qualidade de vida e a tranquilidade que ganharam em terras lusas não têm preço, garantem. Para trás deixaram uni país cada vez mais violento e com um futuro incerto.

Nos próximos tempos, Rejane Bastos não se vai cruzar muito com o vizinho Jair Bolsonaro, no Bairro da Barra da Tijuca, urna zona nobre do Rio de Janeiro. Apesar de viverem próximo um do outro, não podiam estar mais distantes no que diz respeito à área política. A jurista, de 54 anos, votou em Fernando Haddad e não poupa críticas ao militar reformado que foi eleito Presidente do Brasil com mais de 55% dos votos “O grande perigo do Bolsonaro é o que ele despertou na população brasileira. Está-se criando urna coisa perigosíssima que se chama ódio. Ódio racial, ódio homofóbico, ódio contra as mulheres, ódio generalizado. Esse é o perigo”, afirma.

Rejane está em Portugal a visitar o filho, que veio viver para Lisboa há um ano e meio. A família comprou casa no Belas Clube de Campo para Fernando se dedicar à música electrónica, uma área profissional sem muita saída no Brasil, conta a advogada que, para já, se vai manter a viver no Rio. Tudo vai depender do que acontecer nos próximos tempos. Mas não acredita que o mandato de Bolsonaro no Palácio do Planalto traga um virar de página e inicie um período positivo na história do Brasil. Pelo contrário. E avisa, se a violência com base no ódio se instalar, como já foi acontecendo durante a campanha em relação aos homossexuais e contra as mulheres, “venho embora para Portugal, sem dúvida alguma. Não posso ficar num ambiente de fascismo.”

As primeiras declarações do recém-eleito Presidente já deixam antever que o clima de crispação e de divisão no país se vai manter. No dia seguinte às eleições, nas entrevistas que deu às estações de televisão, Bolsonaro voltou a defender o acesso generalizado às armas por parte dos cidadãos a partir dos 21 anos porque a “arma de fogo, mais do que a garantir a vida de uma pessoa, garante a liberdade de um povo”. Urna “necessidade comprovada”, disse, “pelo estado de violência em que vive o Brasil”. E concluiu: “Nós estamos em guerra.” Será que a poeira vai assentar com o tempo ou vai ser neste tom bélico que Bolsonaro vai governar o país a partir de 1 de Janeiro de 2019?

É esperar para ver. Mas, Roberto Sandoval Catena, de 59 anos, não tem ilusões. Para ele, é evidente que o capitão reformado “não é urna pessoa preparada para ser Presidente do Brasil”. O neurocirurgião veio viver para o Porto quando se reformou, há cerca de dois anos. Nas eleições, votou nulo. “Era escolher entre o ruim e o pior”, afirma. O resultado final não o deixa tranquilo. Mas admite que Bolsonaro “era o menos mau” e comprometeu-se a respeitar a Constituição. Agora, só resta “confiar nas instituições”.

O que trouxe este médico para Portugal foi a insegurança no país. Vivia em São Paulo e estava no topo da carreira. Apesar de auferir um bom rendimento, tinha um custo com a segurança que “rondava os três mil euros por mês”. Só blindar um carro custa 30 mil curas, revela. “Eu tinha que blindar todos os carros da família”. Essa parcela nas contas desapareceu. Por isso, diz sem hesitar, vive muito melhor em Portugal do que no Brasil. “Aqui o dinheiro sobra. Lá não.”

Roberto alugou um apartamento em frente ao estádio do Dragão, onde vive com a mulher. Para já, não vai. Comprar casa. Mas veio para ficar. E já pensa trazer os investimentos imobiliários que tem nos Estados Unidos para Portugal. Desde que chegou ao Porto, recebe muitos pedidos de informação de amigos que estão interessados em vir viver para Portugal, mas nenhum quer emigrar por causa de Bolsonaro ter ganho as presidenciais. É mesmo o medo da violência que pesa na decisão. “Vão continuar a vir pessoas com dinheiro, como eu, que tenho as minhas fontes de rendimento.” E, por outro lado, a actividade médica no Brasil está muito difícil, explica “Existe urna desilusão dentro da profissão, e isso faz com que progressivamente muita gente esteja querendo sair.”

(…)

Consulte o artigo completo aqui.

 

Filipa Lino
In Negócios – Weekend | 02-11-2018

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