Eduardo Capinha Lopes Arquiteto

 

Eduardo Capinha Lopes foi o arquitecto escolhido, pelo Grupo André Jordan, para dar corpo ao mais recente destino residencial pensado pelo Grupo. Em entrevista à Anteprojectos, o arquitecto enumera os desafios e as lições que o Lisbon Green Valley encerrou.

Depois de largos anos a projectar e a desenhar para fora do país, está de volta. Neste momento, qual é a percentagem de trabalho que tem em Portugal?
O ano passado tinha apenas 15% em Portugal. Hoje tenho mais, diria que uns 30% em Portugal e 70% fora do País.

Estamos a falar em que tipo de programa? Hotelaria?
Sim, diria que 70% do tempo do gabinete é em trabalho para hotelaria. Para além de projectos em Portugal, temos muita coisa na Europa, Índia, Sri Lanka, Bali. Cadeias de hotéis de luxo, principalmente.
Eu comecei nas cadeias de luxo. Depois, de repente, entrámos no mundo dos low cost e hoje acho que posso dizer que fazemos tudo. As estrelas já não contam muito. Existem hoje vários grupos empresariais, manuais de projecto e temos muito trabalho nessa área.

Como é lidar com esses clientes, os das grandes cadeias de luxo?
Não é difícil. A arquitectura tem esta coisa extraordinária. Todos temos uma opinião para dar sobre arquitectura. O nosso trabalho influencia, de forma decisiva, o bem-estar das pessoas. Basta caminhar ao longo de um passeio para verificar isso. As responsabilidades são muito grandes mas, em última análise, o arquitecto tem uma responsabilidade também para com o cliente e por fazer bem feito. Isso, muitas vezes, exige uma posição pessoal. Não somos desenhadores.
Mas as relações acabam por ser fáceis, também porque quem nos procura sabe o que quer. Até porque, a partir de uma determinada altura, a escolha do arquitecto é uma escolha pessoal e felizmente podem escolher-se os arquitectos com que se quer trabalhar.

Em Portugal também é assim?
A este nível, Portugal também está muito diferente. Devo dizer que o ter voltado a projectar em Lisboa com alguma frequência tem sido uma óptima experiência. A Câmara Municipal tem feito um trabalho fantástico. Hoje em dia, a receptividade dos técnicos, a disponibilidade de informação e o acesso à mesma e à decisão é exemplar!
A cidade está a ficar fantástica e o sucesso que Lisboa tem hoje em dia é o resultado disso mesmo. O discurso político, mais técnico, é um discurso extraordinariamente coerente, o que é muito importante também.

Que grandes desafios tem um projecto de hotelaria?
A hotelaria tem programas muito complexos e demorámos muitos anos a criar uma metodologia de abordagem que permitisse tornar mais simples essa complexidade. O que é que os hotéis têm de bom? É que, na base, são todos praticamente iguais. O que os torna complicados são os manuais de cada um. É uma industria cada vez mais sofisticada. Isso tem facilitado o nosso trabalho, uma vez que as normas são cada vez mais claras. Depois, há outra particularidade: por estarmos mais “balizados” a diferença também se nota mais. Quando se encontra a capacidade de ser diferente nestes programas estereotipados, também é mais recompensador.

Pegando na questão da diferença. O Lisbon Green Valley está integrado em mais de 1000 hectares de floresta e biodiversidade. Como é que se cria a diferença sem interferir nesta harmonia?
Há que dar os créditos a quem os tem e ali os créditos são do André e do Gilberto Jordan no sentido de, primeiro, terem conseguido transmitir-me aquilo que pretendiam e, em segundo, terem-me balizado. A arquitectura tem uma contradição enorme: é um acto egoísta que se pratica em grupo. A arquitectura não é ‘tudo ao monte e fé em Deus’. Tem que ter liderança. Esse foi o sucesso da arquitectura no Lisbon Green Valley. Ali pretendia-se fazer algo “diferente” – embora eu tenha muito medo da palavra “diferente”, porque a diferença é algo que nasce de uma forma natural e que quando não o é, não acontece.
Recorde-se que o Belas Clube de Campo é um projecto muito bem consolidado e estas expansões estão pensadas há muitos anos.
Ou seja, existe uma visão muito forte e muito pessoal que ajuda imenso. Podemos não gostar, mas temos de concordar que ela é coerente e objectiva. Quando pegámos na “diferença”, Belas não era difícil, até porque sempre estiveram presentes muitos arquitectos naquele lugar – digamos até que esta atitude de ter apenas um arquitecto nesta fase foi algo novo. Por conseguinte, eu senti muito a responsabilidade.
Se olhar para Belas, encontra peças fantásticas de arquitectura, de muitos arquitectos diferentes entre si, mas todos fantásticos e todos com o seu espaço.
A responsabilidade era, portanto, grande, com a particularidade de que estávamos a criar habitação para um cliente que não era certo, para clientes que não estão lá, estando nós a assumir que estamos a interpretar correctamente as vontades deles. Tem de existir uma base coerente para, depois, cada morador se apropriar do espaço à sua maneira.
A “diferença” ali era não ser gritante, era não ser diferenciador.
Uma coisa para mim importante na arquitectura é que ela possa envelhecer, que saiba envelhecer, que vá adquirindo o tempo de uma forma correcta. É também o que queremos para este projecto.
Depois há ainda a relação com o exterior, trabalhada ali de uma forma que não é a normal num edifício de habitação, nomeadamente através dos terraços e dos materiais de revestimento, bem como do rebatimento, e da forma como se enquadra na paisagem, perfeitamente identificável mas sem ser dissonante.

Um dos desafios deste projecto do Lisbon Green Valley, prendeu-se com o facto de ter de desenhar espaços de habitação para receber pessoas que não sabe quem são. Outro foi o de criar a diferença sem que esta fosse gritante. Que mais desafios lhe trouxe este projecto?
A ambição. O meu maior desafio foi a ambição do meu cliente, que foi uma enorme responsabilidade para mim. Estamos a falar de trabalhar para um homem que teve a audácia de, apesar de tudo, me dar liberdade. Aquele projecto tem a consistência que tem por existe uma visão muito pessoal por detrás. Aquilo não é uma ideia de ontem, não se criou nada de novo. Aliás, os novos habitantes que chegarem têm já uma comunidade à sua espera, que foi criada e pensada. Belas é uma história de sucesso. Claro que o país atravessa uma fase favorável, mas também há muita coisa à venda, portanto uma coisa não tem que ver com a outra.
Belas honra-me muito e o maior desafio que tive foi o de gerir uma relação de grande responsabilidade e de grande ambição da família comigo. Não estamos a falar de uma peça de arquitectura, mas sim de uma visão. Por isso é que é uma relação violenta no bom sentido. Estamos a falar de visões, não de edifícios. O maior desafio de Belas é conseguir manter a personalidade num espaço que tem um peso, uma presença grande. É um desafio.

A sustentabilidade é hoje um factor importante mas também um “chavão” onde cabe muita coisa. No Lisbon Green Valley como é que ela foi pensada?
Não se consegue impor às pessoas comportamentos que não têm que ver com elas. Ou se os conseguir impor, consegue durante um tempo limitado, não os consegue tornar coerentes e extensíveis. Estas e outras questões não vão lá por Decreto. Funcionam quando conseguimos trabalhá-las e conseguimos mudar hábitos, mas com lógicas. Belas é um dos grandes exemplos de um comportamento sustentável. E aqui, de facto, a arquitectura tinha que revelar uma atitude. Era inequívoco, estivéssemos melhor ou pior preparados, ou tivéssemos algum preconceito ou alguma visão mais radical sobre energia.
Para mim, Belas representou uma oportunidade única. Posso dizer que em termos sustentáveis, cresci mais em cinco anos de projectos em Belas do que numa vida. Isto é absolutamente verdade. Aliás, eu hoje procuro algo na minha arquitectura que aprendi com Belas.
Em termos práticos, nós recebemos agora uma classificação máxima, nas Townhouses, A++, atribuída pelo sistema LiderA, que conclui que as casas apresentam um desempenho ambiental superior a 90%.
O que ali está é consequência de um conjunto de inputs que todos formos transmitindo e de imposições do promotor. Portanto, não há dúvida nenhuma de que quem merece aquilo tudo é o André Jordan, porque a visão é dele. O arquitecto não contribuiu, o arquitecto limitou-se a aceitar e a validar opções e a participar em algumas escolhas, aceitando-as como obrigatórias. Mas a grande lição que tiro disto tudo é que essas imposições hoje já não são uma obrigação e, para mim, têm toda a justificação de serem feitas.