André Jordan em entrevista na UP

Em mais de 80 anos de vida, o empresário André Jordan nunca parou de viajar – nem de trabalhar. Traz nele o mundo todo – e o nome inscrito na criação dos melhores clubes de campo de Portugal. Um homem de valores e de fibra.

É um cliché pensar na vida como uma viagem. Mas o que é aborrecido nos clichés é que muitas vezes só existem porque são verdade.

Mal nos sentamos para conversar, o empresário André Jordan atalha que acha curioso o nome desta rubrica da UP – Viajante Profissional – porque quase nunca foi turista. “Sempre quis ir a lugares com os quais tenho algum relacionamento. Se não, é um pouco como um filme: vai ver por fora, mas não vê por dentro.” Da mesma forma, e a propósito das múltiplas paragens por onde viveu ao longo da vida, do Rio de Janeiro a Paris, passando por Nova Iorque e Buenos Aires, afirmará ser, não do país, mas da comunidade: “Quero fazer parte e quero contribuir”. Hoje faz parte da portuguesa. Mas, por razões pessoais e familiares, anda entre Inglaterra, Estados Unidos e Brasil.

De uma das mesas do restaurante do Belas Clube de Campo avistamos aquilo que tem sido a vida de Jordan nos últimos anos: um empreendimento de 2100 habitações numa propriedade de 400 hectares perto de Sintra, a meia hora de carro de Lisboa. Um terço das casas estão vendidas. Dentro de poucos dias segue para o Rio de Janeiro e São Paulo para sessões de apresentação. A crise financeira deixou o negócio em banho-maria. Agora, aos 83 anos, está a apoiar o filho Gilberto no relançamento. Na verdade, não sabe viver sem trabalhar. Adiantará que foi “formado numa ética de trabalho”. Herança, não da mãe, “uma intelectual romântica”, mas do pai, de uma família de industriais polacos do petróleo. “Lembro-me que durante muitos anos quando abria um jornal no escritório me sentia culpado. Mesmo agora, custa-me quando não vou ao escritório de manhã – embora esteja a trabalhar em casa.” Já o lado literário, que na juventude o levou a vestir a pele de jornalista, é mais consciente. Quer deixar “um legado de experiências”. Lá para a primavera de 2017 deverá sair o novo livro: Viajando pela Vida em Oito Décadas e Meia.

André Jordan chegou a Portugal em 1970. Não foi a primeira vez nem seria a última, numa vida sempre em trânsito, que faria dele, mais do que um viajante profissional, um viajante endógeno. Foi, sim, a mais decisiva. Então com 36 anos, dois filhos, um divórcio da princesa do Liechtenstein e um segundo casamento, o polaco naturalizado brasileiro chegava em busca de uma visão. Dois anos antes, o pai morrera e ele optara por vender as empresas da família. Fora, então, trabalhar para um magnata canadiano da área do imobiliário, um dos homens que “criaram” as Bahamas, Lou Chesler. Até que numa viagem de trabalho, também nas Caraíbas, um sueco lhe falou “no futuro”: o Algarve. “E eu pensei, ‘mas o Algarve eu conheço’.” Chesler desprezou a sugestão e aquilo que poderia ter sido um revés deu lugar a uma epifania. “Quando a gente entra num desvio – esse desvio deu-se por causa da morte do meu pai – de repente encontra-se no tempo e no espaço fora de tudo”, conta com um sotaque carioca. “Pensei, ‘tenho de encontrar outra solução para a minha vida. O que é que eu vou fazer? Vou para Portugal. Claro’.” E assim foi.

Em Portugal, tudo “deu certo”, mesmo com uma revolução que derrubou o regime fascista em 1974 e virou o país do avesso, ou do direito, pelo meio. A ideia de fazer um pequeno clube de campo “com um campo de golfe e uns chalés” transformou-se nos 900 hectares da Quinta do Lago, um empreendimento não “de luxo”, que Jordan não gosta da palavra (“O que é o luxo? É uma torneira de ouro?”), mas “de qualidade”, a menos de 20 quilómetros de distância de Faro, numa altura em que os próprios portugueses ainda estavam a descobrir o Algarve como destino turístico. Com um humor feito de charme e provocação, diz dedicar-se a “projetos sociais para os ricos”. E frisa: “ricos não são milionários; é a burguesia”. “O maior segredo do nosso sucesso são os valores tradicionais.” Hoje a ligação à Quinta do Lago é apenas afetiva. Vendeu tudo em 1988, exceto uma casa onde passa os fins de semana. Pelo caminho passou por aquele que considera o momento mais difícil da vida dele.

Sempre em frente

De tempos a tempos, Jordan envia comentários sobre a atualidade a um grupo de 400 amigos e conhecidos. São textos curtos, lúcidos e bem-humorados. Num de julho intitulado “Os loucos tomaram conta do manicómio”, escreveu: “Não me lembro de um momento de tanta confusão política, económica, social e moral distribuída por todas as partes do mundo”. A afirmação ganha nova relatividade quando sabemos que o empresário de etnia judaica nasceu em 1933, ano em que Hitler chegou ao poder, e que em 1939 estava a fugir da Polónia com os pais, precisamente no dia da invasão pelos alemães. “Por acaso”, ressalva. Oito meses depois chegariam ao Rio de Janeiro, com uma passagem por Lisboa. Tempos terríveis, mas com mais certezas. “Naquela altura havia as forças do Bem, as forças do Mal. Estava tudo mais definido.” A evolução económica, que roubou à política e à gestão pública os mais capazes, também tornou o mundo materialista, defende. Já para não falar na tecnologia, que “está destruindo milhões de empregos diariamente”. Visão negra? Nada disso. “Eu acredito na humanidade e na vitória do Bem. Ao contrário do que disse o [Francis] Fukuyama, a história está é a começar. Vai haver muitas evoluções.” E talvez fale por experiência própria.

De volta aos anos 70 e ao 25 de Abril de 1974 – “Sou social-democrata. Por isso, apesar de profundamente afetado, fui a favor da Revolução” –, Jordan teve de recomeçar. Outra vez. Com o património nas mãos do Estado Português, viu-se de novo no Brasil e a investir. Pela primeira vez, mal. “Na ansiedade de reconstruir a minha carreira, escolhi as pessoas erradas. Passei por grandes dificuldades. Tive uma depressão.” Por vezes somos nós próprios os nossos piores inimigos. O que também soa a cliché. “Fiz terapia com uma russa. Ao princípio custou muito. A psicoterapia põe um espelho à sua frente. Tem de encarar a verdade do por que é que as coisas aconteceram. O trabalho do terapeuta é não deixar você fugir.”

Esta viagem durou ano e meio e antecedeu o regresso, em 1981, a Portugal e ao sucesso da Quinta do Lago. Jordan vê a coisa pelo outro lado. “As experiências negativas são muito didáticas. Há uma tese da Harvard Business School que diz que não se pode ter muita confiança em quem não teve fracassos. Não tem noção dos perigos.” Mas há uma outra parte da equação em que ele não fala nem sabe explicar: a disponibilidade para recomeçar. Chama-lhe “inconsciência”, “irresponsabilidade”, “compulsão”. A incapacidade de aceitar a derrota e de voltar sempre a partir. Dá sempre mais trabalho do que se imagina. “Recuperar, criar, fazer, ser útil. Eu vou em frente, sempre.”